Registo de algumas análises, farpas e aforismos no Facebook de José Adelino Maltez

02
Jul 11

‎Umas dezenas de jovens, traumatizados com a decadência da ditadura que se marcelizava, abriram as janelas ao mundo e embebedaram-se, uns de sonho lusotropical, outros de racionalidade ideológica ou de paradigmas de um exótico que os drogava e transformava o quintal a que estavam confinados num espaço salvífico para a salvação para a humanidade. Foi também esse meu juvenil mundo.

 

"Reuni muitas vezes com um capuz enfiado na cabeça. Nessa altura conheci o Espada e o António Costa Pinto, que estavam como dirigentes da UEC (ML). O Manuel Villaverde Cabral veio do PC, aproximou-se da FAP e depois teve uma relação com sectores da extrema-esquerda italiana." (José Pacheco Pereira, ionline). Excelente coragem de um neoweberiano.

 

Gosto mais da boina basca, porque sou careca. Mas também há a beca. Não desgosto do balandrau. Hoje não usei avental. Mandei vir uma "pizza".

 

Há depois o capelo, o gorro que trouxe da URSS, a comenda, e as muitas encomendas.

 

Os homens não se medem pelos usos. Mas como não deixam ser usados.

 

Até Karl Marx chegou a dizer que não era marxista...Mas ai de quem pensa atirar pedradas, jugando que não tem telhados de vidro. Eu só digo que há muitos caminhos, muitas origens, muitas encruzilhadas e o dogmatismo de sempre, e a persiganga do costume, com muitos Pilatos lavando as mãos e muitas marias, as que vão como as outras, dando sentenças sobre os traseiros da pátria.

 

O que revela a estreiteza são as lunetas usadas: os que só continuam a ver o mundo de forma capitaleira, bairrista e provinciana, isto é, controleira, apenas abrindo excepções aos que, do Porto, vinham, de vez em quando, a Lisboa.

 

Apenas digo que nesse tempo havia mais mundo e mais sonhos, tão malucos como os do maoísmo (pondo acento, não se aceita o dogma interno dos maoístas). Eu também me embebedei: era monárquico, lusotropicalista do nacionalismo místico. Ainda sou monárquico e lusotropicalista, adepto da seita convergente do Quinto Império. Ainda vivo Fernando Pessoa, Paul Claudel e Heinrich Von Kleist. Não perdi os vícios.

 

Como era emocionante poder juntar peça a peça os escritos políticos de Fernando Pessoa, quando parte deles ainda estava na arca, pedindo ajuda a que nos dessem código para o que estava além do J. Gaspar Simões, aceder ao que o brasileiro Agostinho da Silva emitia e chegar aos loucos da Filosofia Portuguesa.

 

Havia maoístas, ainda estremunhados, que chamavam a isto extrema-direita e até faziam livros ditos científicos de caça às bruxas, aliás, bem subsidiados, quando começaram a respectiva transição para a democracia pluralista. Infelizmente usavam as lentes dogmáticas de outrora e continuavam a ver tudo embaciado pelos preconceitos e pelos fantasmas...

 

Eu continuo a dizer que há na política uma metapolítica, aquele espírito que nos permite ascender em esotérico a uma alma nacional, onde a nação é apenas o caminho para a super-nação futura, proclamando, como indivíduo que sonha o universal: tudo pela nação, nada contra a humanidade. Morrerei nesta resistência, olhando o sol de frente.

 

Acredito na Águia que nos pode dar a Renascença Portuguesa. Permaneço romântico. Sou da tradição. E não fala em coisa fungível quando digo Portugal. Viverei para sempre minha heresia. Tal como a prendi mais em poema do que em ideologia. Mas conservo a ideologia que a permitiu desde que a Europa combateu as invasões francesas.

 

Nos finais da década de sessenta, começos da década de setenta, fui um dos que constituiu uma sociedade secreta de jovens. Tínhamos livro comum. Usávamos heterónimos e ainda aqui vêm alguns amigos. Éramos os "escuteiros mirins" e o manual era do maçon Walt Disney. Até nos congregámos a outra seita, a dos "Metralhas", todos contra o "Passarão", alto hierarca deste regime...

 

 Ao Passarão nunca devem ter dito que o Passarão era ele.

 

 

Mas ele não gosta de blogosfera e internet...fazem-lhe a papinha toda.

 

E recordando, fica a emoção a entusiasmar memórias e pensamento. Sobretudo para homenagear um dos que já cá não está, mas está sempre presente, sobretudo no mar que o tragou, essa coragem feita pessoa que teve o nome de António José de Almeida. Vem sempre ter connosco quando as ondas nos recordam que a morte é apenas passagem para o eterno.

 

Eu nunca diria nada dos que, tendo estado comigo, seguiram outros caminhos. Companheiros uma vez, companheiros para toda a vida. Estejam onde estiverem. Guardo o segredo. E sei o que é traição.

 

Roma ainda paga aos traidores. Pior do que isso: promete.

 

E promete muitas vezes em troca de informação. Que o traidor pensa que é vender segredos.

 

Como se o segredo não fosse um estado de alma, de não profanação. Porque quem tem efectivamente segredo nunca chega à palavra secreta que o desvenda. Anda sempre à procura. E por isso terá sempre segredo por achar nesse caminho da perfeição.

 

Houve também o João. Angolano, dirigente de um dos movimentos. Fez a guerra. Era homem grande. Foi um dia assassinado pelo respectivo chefe sem julgamento prévio. Nem ao título de herói teve direito. Que nisto de heróis que se registam há sempre acasos e ocasiões.

 

A esmagadora maioria dos heróis tem necessidade que o respectivo grupo conquiste o poder, para que os possam decretar como heróis.

publicado por José Adelino Maltez às 12:10

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Biografia
Bem mais de meio século de vida; quarenta e dois anos de universidade pública portuguesa; outros tantos de escrita pública no combate de ideias; professor há mais de trinta e cinco e tal; expulso da universidade como estudante; processado como catedrático pelo exercício da palavra em jornais e blogues. Ainda espera que neste reino por cumprir se restaure a república
Invocação
Como dizia mestre Herculano, ao definir o essencial de um liberal: "Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las"......
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