Registo de algumas análises, farpas e aforismos no Facebook de José Adelino Maltez

25
Abr 11

Estatística por estatística, cada um chama-lhe sua. Portugal teve no ano passado o quarto maior défice da zona euro em percentagem do PIB, e a quinta maior divida pública, em ambos os casos bastante acima das médias da zona euro e da União Europeia. Somos os campeões europeus em qualquer crescimento, por exemplo, do desespero.

 

Ele não existe, é o nosso representante. Isto é, está presente em vez do Outro, nós, o povo. Ele é, de facto, o espelho da Nação. Talvez um pouco baço, procurando o brilho da propaganda e a mobilização dos adeptos.

 

Para a maior crise dos últimos cem anos, com a "troika" escondida atrás do hotel onde viveu a Beatriz Costa, lá ficámos entalados entre as transmissões em directo da RTP-Memória e os habituais críticos de televisão da partidocracia com as "cassetes". Infelizmente, um velho não pode voltar a ser novo e as águas do rio não passam duas vezes sob a mesma ponte, mesmo que lhe mudem o nome.

 

O saudosismo do PREC é directamente proporcional ao da união dita nacional. O primeiro foi uma subversão a partir do aparelho de poder. A segunda foi um pretenso partido antipartidos, nascido de uma resolução do conselho de ministros. Ambos foram fraudes.

 

O regime, desencadeado pelos resultados eleitorais de 25 de Abril de 1975, o que se realizou de forma constitucionalmente pluralista na pós-revolução soarista e cavaquista, encontra-se numa encruzilhada de que só pode sair através de uma escolha eleitoral e da subsequente definição governamental. Que será mobilizadora ou simplesmente coveira.

 

Hoje é sempre o dia em que relembro Mendes Cabeçadas. Foi revolucionário do 5 de Outubro de 1910. Foi o primeiro chefe do 28 de Maio de 1926. E liderou o reviralho anti-salazarista de forma militar. Perdeu sempre, mas morreu tentando.

 

António Barreto voltou ao palco mediático. Para dizer que os 47 já são 4 000. E que vamos ter novos partidos nos próximos anos. Como o presidencial não é seguro e já é velho e como, mais à esquerda, já há partido, pode ser que esteja para aí a espreitar uma espécie de partido republicano. Infelizmente, sou monárquico.

 

Hoje, os donos do poder cimeiro chamaram, aos respectivos palácios, palácios do povo. E a malta fez fila para visitar os jardins e as exposições na jaula.

 

Para vivermos o 25 de Abril, deveríamos fazer o 25 de Abril, rejeitando a brigada do reumático. Para cumprirmos Portugal, deveríamos refundar Portugal, sem a habitual pala nos olhos, sempre no retrovisor. Basta olharmos, não uns para os outros, mas todos na mesma direcção.

 

Também há uma clandestina Câmara dos Pares, dos vitalícios que, às vezes, são hereditários. É uma consequência da Sociedade de Corte e do respectivo capitaleirismo. O do permanecente mercantilismo, sobretudo na versão pombalista e do seu irmão-inimigo, a Viradeira. Às vezes, até lhe chamam Revolução e vão dedilhando, como com o 28 de Maio, os Anais da Revolução Nacional.

 

A tenda de Belém é equivalente às procissões onde desfila a banda dos Homens da Luta, como sacristães que perderam o sentido dos gestos. Todos querem vender gato por lebre e facturar os restos. Prefiro os pirilampos que chegaram e as papoilas que despontam, para que as palavras também correspondam à prática.

 

Foram quatro personagens à procura de autor, quatro textos de um contexto, provocados por um pretexto, como se os nomes correspondessem à coisa nomeada. Porque qualquer um poderia subscrever o abaixo-assinado de qualquer dos outros, como venerandas figuras dos chefes de estadão. Ficaram todos encavacados, porque o último a rir é que riu de vez.

 

Os figurantes da ilustre representação nacional adoram os intervalos, onde, dizendo que não são comentadores, vão sempre comentando, como nos passos perdidos dos dito VIP da futebolítica...

 

Claro que os quatro não podiam falar para o povo inteiro. Escolheram representantes, os que se dizem presentes em vez do Outro. E meteram-nos todos numa tenda, no Pátio dos Bichos, como se Isto fosse um jardim zoológico, para onde vão figurantes, com as Primeiras Damas nos primeiro banco, assim de branco pintadas...

 

Era eu um puto, adjunto político do VI Governo Provisório e fiz um inquérito com pedaços de programas dos jovens partidos, à laia de totobola. Pedi a vários políticos dessa coligação que respondessem. Até diziam que coisas do CDS eram do programa do PCP. Eis o regresso à nostalgia do ventre materno, ao hermetismo sem hermenêutica.

 

Cada um dos quatros belenenses já confrontou um dos outros em eleições presidenciais. Cada um deles já apoiou um dos outros no mesmo tipo de eleições. Todos já foram chefes de partido. Mas só dois é que foram ministros e chefes de governo.

 

Se decompusermos, frase a frase, cada um dos quatro textos, muitas frase de um deles podem ir para a boca do outro. Dos quatro, enquanto chefes de partido, apenas Soares fez uma coligação pós-eleitoral, enquanto Sampaio, a fez pré, com o PCP, mas para uma autarquia. Olha para o que eu digo, não para o que fiz...

Lá ouvi as quatro homilias do regime. Não foram discursos fúnebres, não pisaram as raias da literatura de justificação. Ficaram pelos exercícios de construção do epitáfio, com muita metapolítica, em tempo de política. O mais condecorado foi Fernando Pessoa, mas cada um leu o seu heternónimo. O melhor foi a música.

 

Os que servem sem servir-se diferem dos serventuários. Tal como os que pensam livremente não podem confundir-se com os intelectuários, a habitual mistura de intelectual e serventuário que procura lentilhas na mesa do orçamento, gerindo a engenharia da cunha, no presente situacionismo, de subsidiocracia e empregomania, onde não faltam manitus, disfarçados de bispos, com o habitual coro de viúvas

Os maiores exemplos cívicos que conheço são de homens que tomaram partido. Os que, a partir de uma facção, ou de uma perspectiva, conseguiram servir o todo da cidade, sem perderem a alma da convicção. Os que ganharam o respeito dos adversários e a confiança dos cidadãos. Os piores costumam ser os cobardes, desde os indiferentistas aos comodistas. Devemos admirar a coragem de servir.

 

O homem livre pode, e deve, sujar as mãos no compromisso. Não pode é mudar radicalmente de atitude. Tem de continuar a viver como diz pensar, sem andar sempre a pensar como é que depois vai viver. Não é por se fazer um contrato que ele deixa de ser independente. Corre é o risco de tornar mais evidente a traição da falta de autenticidade. E de, como tal, ser rejeitado por quem nele confiou.

 

Ao contrário do que pensaram os autores de algumas mensagens privadas que recebi, estou a referir-me mais aos pequeninos que torceram e que não fazem parte das parangonas. Porque a esses até convém que os olhares se foquem longe do respectivo umbiguismo, para que não se descubram os efectivos padrinhos desta rede de cumplicidades que corre o risco de fazer perpetuar a padrinhagem neofeudal.

 

Tenho pena que ilustres comentadores que nos ensinam a pensar Portugal comecem a perder o estatuto de homens livres, enfileirando-se na ilusão do presidencialismo, o das altas expectativas, gerador de inevitáveis frustrações. Equivalem àqueles adesivos à partidocracia que, correndo atrás da conversão, se tornam mais papistas que o papa.

 

Portugal não continuaria adiado, entre forças vivas e seus feitores, do doméstico e dos supranacionais, se as próximas eleições fossem além do mero reflexo condicionado referendário, provocado pelo habitual monopólio dos perguntadores. Como haveria esperança se elas começassem a dar sinal do golpe de Estado sem efusão de sangue que constitui o mais aliciante das mudanças democráticas.

 

Grão a grão, se vai demonstrando como a revolta face ao situacionismo se dilui nas teias do rotativismo devorista, o que abana a árvore do governamentalismo, à espera que ela apodreça, mas para que outro rebento, do mesmo tronco, mantenha o mais do mesmo. Por outras palavras, mesmo na revolta continuamos sem adequada organização do trabalho nacional.

publicado por José Adelino Maltez às 15:50

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Biografia
Bem mais de meio século de vida; quarenta e dois anos de universidade pública portuguesa; outros tantos de escrita pública no combate de ideias; professor há mais de trinta e cinco e tal; expulso da universidade como estudante; processado como catedrático pelo exercício da palavra em jornais e blogues. Ainda espera que neste reino por cumprir se restaure a república
Invocação
Como dizia mestre Herculano, ao definir o essencial de um liberal: "Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las"......
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